Quantificar o inquantificável

Todos nós sabemos que performance depende mais que habilidade. O quão capaz você parece ser é frequentemente um reflexo de como a tarefa é. No Show do Milhão o cara sempre parece mais inteligente nas perguntas de mil reais do que das de 1 milhão. Um comediante vai ser sempre mais engraçado num show para um público embriagado do que na fila de um banco na segunda-feira.

Quando julgamos o potencial, nós muitas vezes focamos na execução e ignoramos o grau de dificuldade.

Cientistas sociais há tempos já estudam como em um mesmo evento as pessoas tem reações diferentes. O trauma de uma pessoa pode ser o revés de outra. Podemos calcular o grau de dificuldade de um mergulho, mas não existe uma fórmula para quantificar o grau de dificuldade de uma vida.

Este é um problema que há muito atormenta os esforços de ação afirmativa em vagas de emprego. A criação de políticas que favoreçam grupos sub-representados é uma questão politicamente carregada. Liberais e conservadores têm debates acalorados sobre se isso nivela o jogo de campo, compensando a injustiça histórica, ou perpetua a injustiça, induzindo a discriminação reversa.

Muitos grupos ainda estão limitados por amarras culturais e estruturais. É importante encontrar formas sistemáticas de abrir portas às pessoas que foram privadas de oportunidades. Mesmo que pudéssemos resolver esse problema, as políticas que abordam as dificuldades dos grupos não captam todas as dificuldades que os indivíduos enfrentaram.

Quando as orquestras profissionais finalmente começaram a fazer esforços concertados para contratar mulheres, uma solução popular foi fazer com que os candidatos fizessem testes atrás de uma tela.

A incapacidade de identificar o gênero dos músicos forçou os avaliadores a se concentrarem em suas habilidades. Embora isso tenha melhorado as probabilidades para as mulheres, não eliminou totalmente a disparidade de gênero. Dado que as mulheres não tinham acesso à mesma formação profissional, os defensores da ação afirmativa poderiam defender quotas de gênero — ou a redução temporária dos requisitos de competências para as mulheres com base nas desvantagens que enfrentaram como grupo. Mas fazê-lo corre o risco de lançar dúvidas sobre a competência das mulheres musicistas.

Ter em conta o seu grau individual de dificuldade aponta para uma solução mais útil: ajustar as expectativas de competências através do acesso à oportunidade. Por exemplo, as audições de orquestra teriam padrões diferentes para candidatos autodidatas e para aqueles que treinaram a vida toda com acesso ao ensino privado.

O objetivo de medir o grau de dificuldade no nível individual não é beneficiar as pessoas que enfrentam adversidades. Parece que os ensaios pessoais nos dariam uma visão dos desafios dos candidatos à faculdade, mas os estudantes que passaram por sofrimento extremo ficam compreensivelmente perturbados, enquanto aqueles que tiveram a sorte de evitar contratempos significativos muitas vezes sentem pressão para exagerar suas próprias lutas.

Por fim, o principal indicador de potencial não é o conjunto de adversidades que as pessoas enfrentam — mas é como elas reagem a elas. Esse é um sistema de seleção que melhor avaliaria na minha opinião.

Texto inspirado no livro Hidden Potential — Adam Grant 2023.

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